Ruínas da memória: visita à Minas de Corrales e Cuñapiru
Em setembro fizemos várias visitas técnicas importantes para os projetos “Museus de ruínas em paisagens rurais: sustentabilidades do patrimônio industrial”, apoiado pelo CNPQ no edital 09/2022 e “Tecnologias antigas e atuais em culturas tradicionais ibero-americanas: sustentabilidade de paisagens históricas da produção”, também apoiado pelo CNPq na chamada 16/2024 – Faixa 1.
A visita a qual me refiro neste texto foi ao complexo mineiro uruguaio de Minas de Corrales e Cuñapiru, nos dias 13 e 14 de setembro. Minas de Corrales, assim denominada porque surgiu da atividade mineira às margens do Arroio Corrales, é uma pequena cidade (ou vila) do Departamento de Rivera, a que se tem acesso pela Ruta 5, saindo da cidade de mesmo nome. Nós saímos de Santana do Livramento, passando por Rivera e já na metade do caminho avistamos os fabulosos cerros chatos, conformação geológica própria da região. A história da atividade mineira, ou das minas, na localidade ainda é incompleta e os motivos são bem apresentados por Nestor Santana no seu livro Historia de la minería en el Uruguay. Entretanto, um ponto surpreendente é constatar-se que os estudos sobre os saladeiros no Uruguai, em região igualmente distante de Montevideo, não são escassos, mesmo sobre aquelas indústrias fundadas em solo brasileiro, do último quarto do Século XIX até final dos anos de 1920. Mas, a história da mineração é. O que não surpreende é que mesmo com informação oscilante e imprecisa, o turismo do complexo de Minas de Corrales tenha se desenvolvido tanto. A explicação reside na monumentalidade dos restos que se situam na represa de Cuñapiru, a primeira represa hidroelétrica da América do Sul (assim consta ser). As ruínas, verdadeiros castelos consumidos pelo tempo em um cenário de esplêndida imensidão, convencem sobre as histórias épicas, dentre elas, das pesadas máquinas que ainda lá estão, terem sido carregadas em charretes por uma extensão de 40 km, do desembarque do porto mais próximo até esse vazio de caminhos onde estava o ouro. A primeira companhia, que iniciou as atividades em 1880, propriedade de um marquês que habitou no local por um tempo, é referência para histórias que colocam o trabalho na mina como um castigo e os trabalhadores, como escravos assalariados. De fato, muitos eram estrangeiros desterrados. Uma reflexão proferida por uma das guias faz entender a espiral de circunstâncias que assombram essas ruínas. Conversando com ex-mineiros locais, um comentou que empresários brasileiros iriam comprar a mina e reativá-la. É bem repetido que as minas não se esgotaram. Há ouro no local. Sobre a expectativa dos residentes, falou-nos a guia que melhor será que não volte a ter outra mina. A última, de capital canadense, que durou até os anos finais da década de 1990, só exigia do candidato para ser admitido como trabalhador, que tivesse 18 anos completos. Consequentemente, a pequena cidade era formada (possivelmente, ainda parte da população assim seja) de pessoas analfabetas, sem qualquer outra qualificação. Escravos da própria condição. Reféns de um trabalho que devorava sua força, sua saúde e qualquer projeto mínimo de futuro.
Silenciosas, condenadas à ação do tempo, as ruínas de Cuñapiru metaforizam a ruína humana. São memória sem palavras que referem a dimensão do capital em uma paisagem antiga, sólida e majestosa, na qual o patrimônio industrial nos surpreende como um documento absoluto e brutal da capacidade tecnológica que consome o humano.
Notícia escrita pela Professora Francisca Ferreira Michelon em 16 de setembro de 2025.

Os incríveis “cerros chatos” que dominam a plana paisagem da região de Minas de Corrales.
Foto da autora, 2025.

Silhuetas de parte da usina de Piñacuru no final da tarde.
Foto da autora, 2025.

As máquinas instaladas pela empresa francesa na década de 1880. A fotografia foi feita de uma janela da parte superior. O galpão com pé direito duplo é imenso, portanto cada peça de ferro avistada também é grande. E cada uma foi levada ao local por charrete de tração animal ao longo de 40 km, depois de terem atravessado o Atlântico, desembarcado no porto de Montevideo, embarcadas em navios menores e levadas até o porto de Salto, de onde saíram por terra.
Foto da autora, 2025.


