Fonderia Marinelli preserva há séculos a arte artesanal de produzir sinos na Itália
Professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Francisca Ferreira Michelon, visitou a mais antiga empresa familiar de sinos do mundo e conheceu de perto uma tradição reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade em 2024
Por Clarissa Ribeiro, em 28 de agosto de 2026.

Há séculos, o som dos sinos acompanha celebrações, anuncia acontecimentos e marca a vida das comunidades italianas. Na cidade de Agnone, na região de Molise, sul da Itália, uma tradição mantém viva uma técnica transmitida entre famílias há muito tempo. A Fonderia Marinelli, considerada a mais antiga empresa familiar de produção de sinos do mundo, dedica-se desde o século XIV à fabricação artesanal do instrumento.
Atualmente, são 27 gerações da família Marinelli ligadas à produção, especialmente de sinos de grandes dimensões. A longa trajetória da fundição e a preservação dos conhecimentos relacionados à fabricação fizeram com que a produção fosse reconhecida, em 2024, como Patrimônio Cultural da Humanidade. Além disso, a relação histórica da empresa com a Igreja Católica também está presente em sua trajetória. Por produzir um equipamento tradicionalmente presente nos templos religiosos, a fundição teve, durante séculos, ordens religiosas entre sua clientela. Em 1924, o Papa Pio XI chegou a conceder à empresa o título de “Pontifícia”, passando a instituição a ser denominada Pontifícia Fonderia di Campane Marinelli.

A professora doutora Francisca Ferreira Michelon esteve recentemente na Fonderia Marinelli durante sua permanência na Itália, onde desenvolve pesquisas relacionadas às tecnologias históricas dos moinhos. A visita surgiu, inicialmente, a partir de uma informação que despertou sua curiosidade sobre a história do processo. “Fui visitar a Fonderia Marinelli por dois motivos. O primeiro é que conheci na reinauguração do Museo Archeologico Nazionale de Campobasso um dos irmãos Marinelli e a designer dos ornamentos dos sinos. Em conversa, contaram que em um período antigo da longa vida da fonderia, usou-se a energia cinética produzida por moinhos para parte da produção. Hoje, usa-se a elétrica.”, relata. Segundo ela, a informação foi considerada significativa, já que a tecnologia dos moinhos históricos é o que origina sua pesquisa no país.
Respeito e admiração pela tradição
A decisão de conhecer a fundição, no entanto, foi fortalecida pela maneira como a empresa era citada pelos moradores da região. Durante conversas em Campobasso, Francisca percebeu que a Fonderia Marinelli era sempre mencionada com estima e apreço. “O motivo mais forte para a viagem desta visita foi o fato de que todas as pessoas da cidade de Campobasso, com quem conversei, citavam, com respeito e admiração, a Fonderia. Convenci-me de que deveria conhecê-la”, afirma.
A fonderia possui também um museu, em que a visitação é realizada com acompanhamento de guia. No local, não é permitida a produção de fotografias ou vídeos. Antes do início da visita, entretanto, a professora conseguiu autorização para registrar parte da entrada lateral da empresa, de onde é possível observar uma área de trabalho. “Esse amplo espaço, último local da visita, traduz visualmente a antiguidade deste conhecimento produtivo bem como a dureza do trabalho que envolve a produção artesanal de um sino”, explica.

Séculos de conhecimento
A produção de um sino pode levar meses até a conclusão de todas as fases. Por trás de cada peça, estão séculos de experiência e habilidades. “São meses para que todas as etapas sejam vencidas com sucesso. Mas são séculos de prática, aprendizado e aperfeiçoamento para conseguir um sino que atinja a condição de um instrumento musical”, destaca.
A dimensão musical da produção foi demonstrada ao final da visita. O guia responsável pelo percurso, um homem de grande experiência e profundo conhecimento sobre a história e o funcionamento da fundição, conforme ela, apresentou aos visitantes as possibilidades sonoras dos sinos. “Ele tocou vários trechos de músicas universais, como ‘As Quatro Estações’, fazendo soar os sinos de diferentes tamanhos, perfilados na oficina, com um martelo específico”, conta.
Um patrimônio de experiências
A experiência também permitiu à pesquisadora estabelecer relações entre a história da produção dos sinos e os estudos que desenvolve sobre tecnologias e patrimônios históricos. De acordo com a pesquisadora, a fabricação do instrumento exige domínio de diferentes áreas do conhecimento. “O mais destacado é o fato de que a tecnologia de produção de um sino contém diversos domínios: é preciso dominar princípios físicos e matemáticos, conhecer os materiais e seus processamentos, entender a musicalidade do metal e a sua beleza. É necessário ter paciência, cautela e audição acurada”, confirma.

Ademais, para além da materialidade ou no resultado final do objeto, a importância do instrumento também existe nos processos, saberes e práticas envolvidos em sua criação e utilização. “Um objeto pode valer, essencialmente, pelo modo como é produzido e usado. Desse modo, um sino é um patrimônio completo”, ressalta. Ao acompanhar o procedimento tradicional de perto, Francisca também reforçou a compreensão sobre o potencial musical do sino. “Provado ficou que um sino soa como um instrumento musical se dele fizer uso quem souber tocá-lo”, conclui.
A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 Instituição de Execução: Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção (Processo: 403368/2024-3 ) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.
Confira as demais fotos da visita:






