Memória, patrimônio e práticas comunitárias são observados em pesquisa na Itália

Durante período de pós-doutorado na Itália, professora doutora Francisca Michelon acompanha manifestações culturais e a relação de uma comunidade com seu território e suas tradições
Por Clarissa Ribeiro, em 15 de setembro de 2026.
A experiência de estar em um território novo também pode fazer parte de uma pesquisa. É a partir dessa perspectiva que a professora doutora Francisca Michelon, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), tem vivenciado o período de pós-doutorado em Molise, na Itália. Durante esse tempo, a pesquisadora acompanha espaços, manifestações culturais e modos de vida que ajudam a compreender como memória, patrimônio e comunidade se relacionam ao longo do tempo. “Na pesquisa que desenvolvo em Molise, conhecer a região é necessário”, afirma. Para ela, os registros feitos durante o período na Itália também assumem a forma de relatos sobre os lugares visitados e as experiências vivenciadas.
A região de Molise é uma das menores e mais jovens da Itália. Separada de Abruzzo em 1963, possui baixa densidade populacional e tem Campobasso como capital. Foi na cidade que Francisca estabeleceu sua permanência durante o pós-doutorado e de onde passou a conhecer diferentes comunidades e manifestações culturais da região. “Não faz muito que estou aqui. Se for exata: há 1 mês e 10 dias quando escrevo o que segue”, relata a pesquisadora.
Desde a chegada, a paisagem italiana também passou a integrar suas observações. Montanhas, construções históricas e pequenas comunidades fazem parte de um cenário que, segundo Francisca, desperta uma relação constante com a fotografia e com a memória. “Logo que cheguei pensei que deveria ser um dever fotografar tudo”, conta.
Roccaspromonte e a memória comunitária
Entre as experiências vivenciadas pela pesquisadora está a participação na festa Sapori e Saperi, realizada no borgo de Roccaspromonte, pertencente à comune de Castropignano. O evento gastronômico e cultural é organizado pela Associazione Athena di Roccaspromonte e ocorre há sete anos, mesmo que interrompido em alguns períodos devido à pandemia.
O acesso ao pequeno borgo depende de carro, já que não há transporte público até o local. A estrada conduz os visitantes pela montanha e permite observar a paisagem da região. Atualmente, cerca de 90 pessoas vivem na comunidade, enquanto, na década de 1970, o número teria chegado a aproximadamente 400 habitantes. O processo de redução populacional também aparece na paisagem. Há diversas casas fechadas e sem moradores, em um cenário que Francisca relaciona ao despovoamento das chamadas aree interne italianas.
“As casas de pedra continuam subindo o morro e na praça, a igreja que ocupa lugar de honra, também é de pedra”, descreve. “Nada é majestoso, mas tudo é digno, pleno de tempo e de história. Portanto, comove.”
A relação com o tempo é uma das características que mais chamaram a atenção da pesquisadora. Ao observar as construções, Francisca percebeu que algumas paredes de pedra haviam sido cobertas por reboco ao longo das décadas, acompanhando mudanças nos padrões arquitetônicos. Atualmente, alguns moradores trabalham para recuperar a aparência original das construções.
Para a professora, a preservação do borgo não ocorre apenas por meio da conservação física dos prédios, mas também pela participação dos próprios moradores. “São as pessoas que moram ali que mantêm o borgo. Cada um cuida da sua casa e todos cuidam do lugar”, observa.
Gastronomia como patrimônio
A festa transforma as ruas da pequena comunidade em espaço de convivência e apresenta pratos preparados pelas próprias famílias. As receitas podem ser locais ou frutos de adaptações, mas mantêm características dos modos de fazer da região. “Todas as comidas são feitas pelas famílias (algumas pela nonna da família). E são receitas locais, ou não, mas feitas no modo do lugar”, relata Francisca.
O evento também reúne apresentações musicais e diferentes soluções para organizar a circulação dos visitantes. Quem compra o ingresso com vinho recebe uma pequena bolsa para carregar a taça durante o percurso. Um crachá identifica os alimentos já servidos. Para a pesquisadora, são mecanismos simples, mas que contribuem para a experiência coletiva. “Soluções simples, práticas e eficazes”, define. A festa, entretanto, representa para Francisca sentimentos que vão além da gastronomia. “Há um sentido pleno de comunidade”, afirma.

Entre Itália e Brasil
A experiência também levou Francisca a estabelecer relações com pesquisas desenvolvidas no Rio Grande do Sul. Entre elas está a tese de doutorado de Wagner Halmenschlager, doutor em Memória Social e Patrimônio Cultural e professor do curso de Gastronomia da UFPel. Em sua pesquisa, Wagner analisou festividades da Comunidade Gustavo Adolfo, em Morro Redondo, buscando compreender as relações entre práticas alimentares, tradição e sociabilidade. A aproximação entre as duas experiências permite observar como comunidades geograficamente distantes podem utilizar festas e práticas culturais para preservar vínculos e referências coletivas.
Francisca ressalta, no entanto, que uma pesquisa acadêmica aprofundada permite observar aspectos que uma experiência pontual não alcança completamente. “A densidade de uma pesquisa de doutorado aprofunda questões que uma avaliação rápida do fenômeno não consegue nem vislumbrar”. Ainda assim, a pesquisadora identifica como as comunidades são diversificadas. Para ela, a principal diferença está na maneira como o tempo e a memória se manifestam em cada território. “Vejo muitos pontos de convergência entre as duas comunidades, tão distantes geograficamente”, afirma. “Mas, também, vejo uma variável preponderante ao se falar de Roccaspromonte: o tempo da memória, ou melhor dizendo, a memória no tempo”, complementa.
A observação também se relaciona ao conceito de memória cultural desenvolvido pelos pesquisadores Jan e Aleida Assmann. Para Francisca, a experiência em Roccaspromonte evidencia como a memória pode permanecer presente nas práticas sociais, nos espaços e nas relações estabelecidas por uma comunidade. “Ela existe, e é institucional, nem sempre de forma visível e tangível”, explica.
De acordo com ela, é justamente nessa relação entre território, cultura e tempo que a experiência ganha significado. “Aqui se sente o tempo, tão denso que pode ser tocado; lá se sente a evocação do tempo, tão fluído que tudo parece novo.”
A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 Instituição de Execução: Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção (Processo: 403368/2024-3 ) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.


