Experiência em Molise aproxima pesquisa da memória camponesa italiana

Experiência em Casalciprano, na região de Molise, integra pesquisa sobre os conhecimentos relacionados aos moinhos que acompanharam a imigração italiana para o Brasil
Por Clarissa Ribeiro, em 15 de setembro de 2026.
Em meio às montanhas da região de Molise, no sul da Itália, pequenas vilas preservam marcas de diferentes períodos da história e modos de vida. Foi nesse cenário que a professora doutora Francisca Ferreira Michelon, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), conheceu Casalciprano, uma comune da província de Campobasso que abriga um dos chamados borghi italianos, vilas medievais caracterizadas pelas construções históricas e ruas estreitas de pedra.
A visita faz parte da pesquisa que a professora desenvolve na região e está relacionada à investigação sobre os conhecimentos ligados aos moinhos e à forma como esse saber foi levado pelos imigrantes italianos ao Brasil. Para ela, conhecer o território é fundamental para compreender a trajetória desse conhecimento ao longo do tempo. “Na pesquisa que desenvolvo em Molise, conhecer a região é necessário para entender como, ao longo de séculos que atravessam milênios, os moinhos foram equipamentos necessários para a subsistência das comunidades”, explica.
A formação de Casalciprano está relacionada a um processo conhecido como encastelamento defensivo, ocorrido por volta do ano 1000. Naquele período, conforme Francisca, comunidades que viviam em áreas mais abertas próximas ao rio Biferno foram gradualmente deslocadas para regiões montanhosas. Nos pontos mais altos, senhores feudais construíram castelos e muralhas como forma de proteção contra as invasões da época.
Ao longo dos séculos, esses povoados sobreviveram nas montanhas e mantiveram parte das características de sua formação original. Em Casalciprano, as ruas estreitas e de pedra sobem e descem entre casas construídas umas ao lado das outras. Algumas foram ocupadas e reformadas, enquanto outras permanecem desocupadas. Para a pesquisadora, a preservação dessas características em específico contribui para a experiência de contato com o passado. “Quanto menos interferência houve, mais impregnadas de tempo e passado são essas vilas”, pontua.

Museu que ocupa as ruas
Além do próprio patrimônio arquitetônico, Casalciprano guarda uma experiência museológica que chamou a atenção da pesquisadora: o “Museo a cielo aperto della memoria contadina molisana”, ou Museu a Céu Aberto da Memória Camponesa de Molise. Criado em 2004 pela Associazione Culturale Arx Prandi, em cooperação com a Prefeitura de Casalciprano, o museu se espalha pelas ruas do vilarejo. A proposta ganhou novos elementos em 2010, com a instalação das chamadas “Paredes Pintadas”, e em 2011, com o “Sótão das Memórias”.
De acordo com o Assessorato di Turismo della Regione del Molise, a experiência possui uma abordagem curatorial “original e não convencional”. O percurso combina diferentes períodos e reúne objetos tradicionais, esculturas e pinturas contemporâneas para representar aspectos da vida camponesa local. Entre os elementos estão reproduções coloridas de fotografias do final do século XIX e obras produzidas em bronze, mármore, cerâmica e papel machê.

Na prática, o museu não se limita a uma construção fechada. Ele ocupa as próprias ruas, pequenas praças, nichos e espaços do borgo, incorporando-se à rotina da comunidade.
Para Francisca, essa característica torna a experiência envolvente, pois o visitante percorre as ruas seguindo placas que indicam os diferentes pontos do museu e, ao longo do caminho, encontra cenas que representam atividades e personagens da vida cotidiana de outros tempos. “Caminhar por essas ruas já é uma experiência temporal”, relata.
Entre os elementos encontrados durante o percurso estão murais, esculturas e cenários que representam situações do cotidiano rural. Uma das cenas mostra uma mulher diante de uma lenha em chamas. Em outros pontos, aparecem crianças em brincadeiras tradicionais e representações dos espaços onde os grãos eram moídos.

Memória que ultrapassa fronteiras
A experiência em Casalciprano dialoga diretamente com a investigação desenvolvida por Francisca em Molise. Ao estudar os moinhos e os conhecimentos relacionados ao seu funcionamento, a pesquisadora busca compreender também aquilo que foi levado para o Brasil durante a grande onda migratória italiana, iniciada no último quarto do século XIX e prolongada pelas primeiras décadas do século XX.
Para ela, esse conhecimento não pode ser compreendido de maneira isolada. É necessário observar as diferentes camadas históricas que compõem o território de origem. “Esse conhecimento demanda que se separem as camadas do palimpsesto temporal na região em que me encontro pesquisando”, explica. Ao mesmo tempo em que a visita permitiu conhecer uma comunidade preservada ao longo dos séculos, possibilitou observar como a própria população transforma seu patrimônio em instrumento de memória.
O museu também apresenta uma particularidade: apesar de representar um modo de vida do passado, permanece inserido em um espaço vivo. As pequenas praças continuam sendo utilizadas pelos moradores, enquanto as obras e instalações convivem com as casas e com a circulação rotineira.
Para a pesquisadora, essa combinação entre patrimônio, território e memória faz do local uma experiência singular para quem visita Molise. “Pela minha experiência, estando em Molise, Casalciprano é um destino certo para quem quer visitar um museu vivo, aberto e envolvente”, conclui.
A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 Instituição de Execução: Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção (Processo: 403368/2024-3 ) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.


