Visita técnica – Rabicho Ferroviário, um lugar onde o trem andava de costas
Durante o IV SemPIAS, os participantes do evento fizeram uma visita técnica ao Museu Estação Férrea Várzea Grande e ao Rabicho Ferroviário. As visitas, realizadas no dia 29 de maio, foram guiadas pelo pesquisador Wanderley Cavalcante e pelo professor Alex Juarez Müller. Por motivos técnicos, não foi possível visitar internamente o museu, porém, o Sr. Wanderley, supervisor do museu, explanou a origem das primeiras linhas ferroviárias que integraram a região, em especial a linha Novo Hamburgo-Taquara, com o objetivo de aproximar os núcleos coloniais e que, se expandiu na linha Taquara-Canela. Sobre a estação, nos contou que antes de se tornar um museu, o prédio esteve ocupado por moradores e que precisava de uma restauração urgente. Após a desocupação e restauro, antes de se tornar museu, a antiga estação foi um espaço cultural.
O senhor Wanderley contou da importância da estação, a primeira da cidade, como o centro pulsante da vida local, com comércios que serviam aos passageiros que por ali passavam e, com isso, o desenvolvimento da região. A outra estação de Gramado funcionava onde hoje é a estação rodoviária da cidade. A Estação da Várzea Grande surgiu para suprir o transporte de cargas e passageiros, até então feito por estradas em veículos de tração animal. A estação restaurada e muito bem conservada abriga o museu, com uma exposição organizada por equipe especializada, contando com museólogo e historiadores.Segundo o Sr. Wanderley, os objetivos do Museu Estação Férrea Várzea Grande são de preservar e orientar na educação e integração comunitária, como espaço de memória do sítio ferroviário, promovendo a preservação do patrimônio e valorização do território. A estação se destaca na paisagem local, já bastante alterada pelo passar dos anos. Infelizmente, como acontece em praticamente todas estações onde já não há mais o fluxo de trens, não há mais os trilhos.
Após a visita no museu, seguimos em caminhada até o Rabicho Ferroviário, um lugar único, onde a engenhosidade e ousadia da engenharia ferroviária fizeram o trem “andar de costas”. Segundo nossos guias, o percurso entre Gramado e Canela reservava uma surpresa aos viajantes. Parte do percurso era feito com o trem andando em marcha ré, uma solução encontrada para vencer uma subida íngreme na encosta da serra entre a estação Várzea Grande e o restante da viagem entre o centro de Gramado e Canela. Normalmente se faria um túnel, porém essa solução seria muito onerosa. Infelizmente, há muito pouco sobre os vestígios dos elementos estruturais do que foi o Rabicho. Ao longo do percurso, entre a Ponta de Baixo e a Ponta de Cima, haviam muros paradores, giradores nas duas pontas, muros de contenção e demais componentes, como lastros e dispositivos de mudança de via. Os trens, com vagões de carga e carros de passageiros, levavam mais tempo para fazer o percurso do rabicho, já os carros-motor, eram mais rápidos. Muitos passageiros desciam na estação, visitavam o comércio local e, em seguida, caminhavam até a parte de cima, onde o trem fazia a volta. Na Ponta de Cima, o muro para-choque era o local onde os passageiros faziam fotos e registravam o momento e a paisagem, que na época, não possuía a vegetação atual. O sítio arqueológico do Rabicho Ferroviário, testemunha de um importante e único patrimônio industrial, precisa ser preservado, no pouco que resta. Além do aspecto técnico, o Rabicho faz parte da memória coletiva dos passageiros e moradores que viveram na época em que o trem era o principal meio de transporte.
Para mais informações, recomendo:
CAVALCANTE; Wanderley; WEBER, Eduardo da Silva; MÜLLER, Alex Juarez. História e memória dos tempos do trem: Gramado-RS e a linha férrea Taquara-Canela. Porto Alegre: Edigal, 2026.
CAVALCANTE, Wanderley. “Um trem que andava de costas”: o rabicho ferroviário e a reconstrução da memória ferroviária em Gramado-RS. In: MICHELON, Francisca Ferreira et al. (org.) Patrimônio cultural e sustentabilidade. Mação: Instituto Terra e Memória, 2024. p . 97-112.
CAVALCANTE, Wanderley et al. (org.). Gramado: dos primeiros povoadores à chegada do trem (1919). Gramado: Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal da Educação, 2020. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=PhsMEAAAQBAJ&printsec=frontcover&hl=pt-BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 13 jul. 2026.
Instagram do grupo Fábrica de Memórias. https://www.instagram.com/fabrica.de.memoria.ufpel/

Participantes do evento em visita ao Museu Estação Férrea Várzea Grande – Fotografia: Tatiane dos Santos Cruz

Interior do Museu Estação Férrea Várzea Grande

Sr. Wanderley mostrando o girador do Rabicho Ferroviário

Girador, lugar onde a locomotiva e o carro-motor viravam 180º, com força humana
Girador

Muro parador (ou para-choque), lugar onde a composição encostava antes de mudar de via.

Topo do muro parador.

Infográfico de como funcionava a operação. Fonte: Wanderley Cavalcante.
Notícia escrita por Ubirajara Buddin Cruz, em 16 de julho de 2026. Fotografias do autor.


