LEWINSKI, Cinara Isolde Koch. Tirando as mulheres trabalhadoras da sombra: um estudo de caso sobre o patrimônio industrial do Museu da Eletricidade e do Museu do Trem de São Leopoldo. Início: 2025. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas [Em desenvolvimento].
Esta pesquisa se propõe a refletir sobre a representação das trabalhadoras das empresas estatais Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) e Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), a partir das imagens encontradas nos acervos do Museu da Eletricidade e do Museu do Trem de São Leopoldo. Esses e outros museus são dotados de suportes específicos que estimulam a rememoração, os quais Candau (2016) denomina sociotransmissores e que, portanto, constituem lugares profícuos para a perpetuação de memórias. Além disso, são instituições são consagradas por sua capacidade de potencializar as lembranças, como observa Nora (1993, p. 12) ao afirmar que, caso mantivéssemos nossa memória viva, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares, pois não haveria memória regida pela história. Em outras palavras, “[…] os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea […]”
Nesse sentido, o Museu da Eletricidade e o Museu do Trem de São Leopoldo podem ser considerados ‘lugares de memória’ e os seus acervos contribuem para que a história da CEEE e da RFFSA possam ser reconstruídas, bem como a memória dos trabalhadores dessas empresas estatais. Nesse contexto, pretende-se analisar a representação das mulheres trabalhadoras nas imagens contidas nos acervos fotográficos e documental das duas instituições. Com a hipótese de que o discurso museológico e os objetos que remetem ao feminino incorporaram as identidades cristalizadas impressas pelas relações de poder que impõe como sujeito universal como masculino, a pesquisa em andamento busca pensar as trabalhadoras com suas particularidades. Dessa forma, o estudo em andamento está emergindo um universo feminino próprio, diverso, mas não inferior do masculino. Rago aponta para a discussão a recente inclusão das mulheres no campo das pesquisas historiográficas, (1995, p.83) que apresenta segundo a autora “uma aguda percepção do feminino e trazem enorme contribuição para a desconstrução das imagens tradicionais das mulheres como passivas e incapazes de vida racional e de decisões de peso”.
Enfim, pensar as representações das funcionárias da CEEE e da RFFSA, tendo como referencial os conceitos teóricos da memória social para compreendê-las e lançar um olhar crítico sobre o discurso uniformizador que secundariza o papel da mulher, resultará em uma nova leitura dos patrimônios industriais musealizados do Museu da Eletricidade e do Museu do Trem de São Leopoldo. Além disso, conferirá às mulheres “um destaque particular à sua atuação como sujeito histórico e, portanto, à sua capacidade de luta e de participação na transformação das condições sociais de vida” (RAGO, 1995, p. 82).
RODRIGUES, Lília Waltzer, Das Fábricas de Gaitas à Fábrica De Gaiteiros: A “Botoneira” como Patrimônio Transfronteiriço e Transregional do Rio Grande do Sul. Início 2026. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, [Em desenvolvimento].
Apresenta-se a gaita de oito baixos ou a “botoneira” como um elemento que se insere no conjunto do patrimônio transfronteiriço e transregional do Rio Grande do Sul. Transfronteiriço porque envolve os fluxos de musicalidade que decorrem de diferentes vetores, dos quais se destaca neste trabalho, o tipo de instrumento. Desde a sua fabricação, trata-se de um objeto que ao mesmo tempo que integra, guarda sua personalidade.
Lembra-se que a gaita tem seu lugar de afirmação na música, e consequentemente, seu lugar de permanência. Há algumas décadas, era um instrumento popular. Depois, por razões de contexto, perdeu sua popularidade. Poderia ter desaparecido, mas não desapareceu, e hoje se observa que voltou com toda força.
Veio para o Brasil trazida pelos imigrantes europeus, na sua origem, é uma herança europeia, mas o seu uso atravessou o Brasil, de nordeste a sul, porque se adaptou muito bem à intensidade sonora de muitas regiões do país. Na fronteira Brasil-Uruguai (o que equivale dizer: Rio Grande do Sul e Uruguai encontrou um lugar de expressão muito forte, que possivelmente explique a força da sua presença hoje.
Fruto da adaptação da música trazida e praticada pelos imigrantes no estado, sobretudo os italianos, a qual foi hibridizada e integrada nas fronteiras com o Uruguai e a Argentina, tanto a gaita quanto o gênero musical acabaram silenciados; contudo, retornaram à cena no final da década de 1990, fortalecidos ao se apresentarem como manifestações de memória e resistência.
CEGLINSKI, Lucas Zuchoski. A última marcha da máquina: a memória das técnicas na transição para os carros fúnebres automotores no Brasil. Início: 2025. Tese (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas [Em desenvolvimento].
Para o historiador Ulpiano Bezerra de Meneses (1998), a cultura material é a materialidade das coisas, tudo o que podemos tocar e ver, objetos físicos criados pelo ser humano, que fazem parte do nosso cotidiano. Esses objetos podem ser característicos de uma determinada época, cultura, sociedade, bem como as roupas, os utensílios de cozinha, as ferramentas. Os objetos que nos rodeiam e desempenham diferentes funções, de práticas a simbólicas, constituem o que o antropólogo José Reginaldo Gonçalves denomina como “teia de objetos” (2007, p. 14). Essas coisas tangíveis possuem valor ou função dentro do contexto cultural das sociedades ou grupos específicos, assim como as camisas do Grêmio para a torcida gremista.
Seguindo esse viés, o designer Marcus Dohmann (2010), em suas diferentes formas de falar sobre cultura material, destaca que os objetos, coisas, troços e tralhas podem estar carregados de significados, atribuídos por quem os possui. Cabe ressaltar que os “significados não são propriedades inerentes aos objetos, emergindo e modificando-se continuamente, de acordo com as relações
travadas durante a existência de cada indivíduo” (Dohmann, 2013, p. 35).
Portanto, a ressignificação de valores de um determinado objeto pode mudar devido a diferentes fatores.
SILVEIRA, Laiana Pereira da. As camisas do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense: artefatos da cultura material e processos de memória. Início: 2022. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas [Em desenvolvimento].
A pesquisa investiga a transição das carruagens fúnebres de tração animal para os automóveis motorizados no Brasil, entre as décadas de 1910 e 1930, com destaque para a região de fronteira entre Brasil e Uruguai. O estudo busca compreender como essa transformação tecnológica modificou os costumes, os cortejos e os rituais relacionados à morte, considerando os veículos fúnebres como objetos que preservam memórias e representam mudanças sociais e culturais. Além disso, pretende identificar as técnicas artesanais utilizadas na construção e adaptação das carrocerias, evidenciando a relação entre a produção industrial e os conhecimentos de marceneiros, funileiros, mecânicos e outros profissionais que os construíram.
A metodologia envolve a pesquisa em documentos históricos, jornais, fotografias, catálogos de fabricantes, acervos museológicos e coleções particulares, além da realização de entrevistas para recuperar conhecimentos técnicos e memórias relacionadas aos veículos. Segundo Alberti (2013), a História Oral permite produzir e analisar depoimentos como fontes para a compreensão das experiências e interpretações dos sujeitos sobre o passado.
A pesquisa também prevê o registro e a análise dos exemplares remanescentes, incluindo suas características construtivas e possíveis modificações. Dessa forma, o trabalho pretende contribuir para a preservação da memória das técnicas, valorizando os automóveis fúnebres como parte do patrimônio industrial móvel e reconhecendo a importância dos saberes artesanais na história da tecnologia e dos rituais funerários.
COSTA, Denise Prado. Entre cenas, cenários e identidades: pistas de uma cidade que dança suas memórias. Início: 2022. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, [Em desenvolvimento].
É possível considerar as danças como iniciadas junto à própria humanidade. Em seus processos históricos, elas são compreendidas como primitivas, milenares, clássicas, modernas, neoclássicas e contemporâneas. Dentro de seus períodos históricos, desenvolveram modalidades e gêneros conforme os processos culturais de cada tempo. Assim, assumir as danças como objeto de pesquisa é afirmar que, em seus processos histórico-culturais, elas se justificam por si mesmas. Entretanto, esta pesquisa propõe refletir sobre a dança para além de suas manifestações visíveis, compreendendo-a como entrelaçada a tramas subjetivas que dialogam com questões socioculturais e políticas.
Para isso, investigam-se memórias e histórias em torno das danças na cidade de Rio Grande/RS, a partir de registros memorialísticos femininos, visando reconhecer a feitura artística das mulheres rio-grandinas. Busca-se refletir sobre as dinâmicas comunitárias e sobre a vivência e transmissão do patrimônio cultural no interior da comunidade. O recorte de gênero adotado decorre da expressiva presença feminina nas publicações jornalísticas pesquisadas.
O estudo adota uma abordagem contextual, elaborada a partir das subjetividades de diferentes sujeitos, coletadas por meio de entrevistas com fontes primárias, depoimentos, jornais, imagens e documentos históricos. A intenção é compreender como as tradições são preservadas e adaptadas ao longo do tempo. Num primeiro movimento investigativo, percebeu-se que o percurso do balé em Rio Grande/RS ganha destaque, sendo especialmente construído pelo trabalho e dedicação de mulheres que deixaram um legado na dança. Com isso, evidencia-se a emergência de registrar e nomear essas trajetórias fundamentais para a escritura de uma história das danças no município.
A pesquisa, portanto, constrói reflexões que valorizam histórias, sujeitos e os caminhos percorridos por artistas dançantes na cidade, além de apontar fragmentos de uma memória coletiva. Ressalta-se que esta investigação é parte de uma tese em movimento, já contribuindo para ampliar os conhecimentos sobre o campo científico das danças e incentivando a criação de novas produções na área
MENDES, Caterine Henriques. Conflitos nas ações de proteção e reuso de um patrimônio industrial: A fábrica de sabão e velas Lang (Pelotas/RS). Início: 2024. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas. Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, [Em desenvolvimento].
Esta pesquisa tem como objetivo refletir sobre a antiga Fábrica de Sabão e Velas Lang como patrimônio industrial da cidade de Pelotas, em uma perspectiva de paisagem cultural, investigando os valores patrimoniais a ela atribuídos, bem como sua gestão e seu reuso social. Para tanto, partese da consideração da fábrica como um potente lugar de memória, inserido na paisagem produtiva da cidade, marcada pela força de trabalho de uma comunidade operária e por uma fábrica de gestão familiar. Ao considerar que a paisagem industrial da produção vincula sua dimensão física à dimensão social, e ambas à dimensão histórica, busca-se responder às seguintes problemáticas: o que há de simbólico nesse patrimônio? Por que ele foi retirado da área de preservação cultural da cidade? Quais são as consequências desse ato? Quais são as ressonâncias desse patrimônio em relação à sua comunidade? Quem atribui significados a esse patrimônio? E como habitar esses lugares de memória?
Neste contexto, pretende-se analisar os novos usos da fábrica e os desafios de gestão desse patrimônio como vetor de bem-estar social, assim como as possibilidades de ressignificação desse bem cultural. A hipótese é a de que a Fábrica Lang corresponde ao momento em que se encontram o conceito e os meios de proteção do patrimônio industrial no contexto brasileiro, no qual o reconhecimento dessa tipologia patrimonial começou a se evidenciar a partir das décadas de 1960 e 1970. Portanto, sua fragilidade perante os conflitos de interesse, o desenvolvimento urbano e a especulação imobiliária tornam-se evidente. O Brasil não possui legislação específica para essa categoria patrimonial, o que acarreta, em muitos casos, a descaracterização parcial significativa desses bens, como ocorreu durante o processo de reconhecimento da Fábrica Lang. Desse modo, justifica-se a presente pesquisa como contribuição ao esforço de pensar formas eficientes de estudo, preservação e reuso desse patrimônio.
Como base teórica, parte-se da concepção de que o patrimônio industrial é multidisciplinar, considerando o alargamento de sua dimensão decorrente das pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos, marcado por maior representatividade temática e pela necessária participação cidadã, além das novas fronteiras patrimoniais. O principal conceito de patrimônio industrial adotado nesta pesquisa encontra-se nos documentos oficiais: Carta de Nizhny Tagil (2003), Princípios de Dublin (2011), Carta de Sevilha (2018) e Carta de Motril (2025). Buscando compreender a dimensão imaterial desse patrimônio, utiliza-se o conceito de memória coletiva, de Maurice Halbwachs. Para pensar os conflitos patrimoniais, utilizam-se Chagas e Meneses. Por fim, mobilizam-se os conceitos de ressonância patrimonial e significação presentes em Gonçalves, Meneses e Prats, entre outros autores.
Em uma perspectiva qualitativa, esta pesquisa será desenvolvida por meio de consultas a fontes primárias e jornais que fazem referência à antiga Fábrica de Velas e Sabão Lang, além de revisão bibliográfica acerca do patrimônio industrial no Brasil e de seus processos de reuso. Em um segundo momento, será analisado, sob a perspectiva da análise crítica do discurso, o processo instaurado pelo Ministério Público envolvendo o reconhecimento da Fábrica Lang como patrimônio cultural.
Posteriormente, serão investigadas as memórias da comunidade e dos ex-trabalhadores. Por fim, com base nos resultados obtidos e na análise do processo envolvendo a Fábrica Lang, a legislação de proteção, as evocações memoriais e a atual ocupação do espaço por uma instituição de ensino, esta pesquisa pretende contribuir para a preservação da memória da Fábrica Lang, evidenciar e valorizar o patrimônio industrial como paisagem cultural e propor ações de memória que envolvam a comunidade.