BELMONTE, Giane Trovo. Tesouro Humano Vivo: os guardiões do saber fazer da tradição doceira de Morro Redondo/RS. 2023. 108 f. Dissertação (Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, 2023.
Esta pesquisa apresenta uma investigação sobre os detentores da tradição do doce colonial da antiga Pelotas, juntamente às famílias de tradição doceira da cidade de Morro Redondo, que mantêm os costumes da feitura do doce transmitida por meio de gerações. O objetivo do estudo foi identificar quem é ou quem são os Tesouros Humanos Vivos que a comunidade e o poder público reconhecem como tal. Identificou-se elementos que concentram ações de proteção ou indicam conflitos sobre as práticas desse detentor, gerando reflexão sobre as garantias de viabilidade desse Patrimônio Cultural Imaterial.
Os procedimentos metodológicos adotados foram de caráter qualitativo, descritivo e empregaram-se instrumentos de pesquisa bibliográfica e documental, registros fotográficos, visitas e entrevistas e suas transcrições parciais. Mediante o cenário e às ações coletivas praticadas, observou-se que o THV existe tanto quanto a tradição. Contudo, identificou-se um cenário de conflitos e resistências que causam ranhuras e descrença no patrimônio como instituição. Sendo assim, o cenário e as ações coletivas de salvaguarda da tradição doceira devem ser pensadas de maneira a auxiliar e proteger esse patrimônio vivo.
SALASAR, Desirée Nobre. Comunicação equitativa na perspectiva do desenho universal: estudo de caso do Museu da Comunidade Concelhia da Batalha. 2024. 208 f. Tese (Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural) Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2024.
Esta pesquisa fundamentou-se na comunicação para todos numa perspectiva do Desenho Universal. A comunicação como base estrutural do ser humano e dos museus tornam necessário encontrar diferentes métodos comunicacionais que ampliem a fruição e a participação nestes espaços. Portanto, o objetivo geral da pesquisa foi identificar quais são os elementos essenciais para a comunicação equitativa em um museu de comunidade na perspectiva do Desenho Universal. Para alcançar o objetivo desta investigação foi utilizada metodologia mista que buscou integrar métodos qualitativos e quantitativos, tendo como abordagem metodológica o estudo de caso do Museu da Comunidade Concelhia da Batalha,MCCB, em Portugal.
Para tal, após o levantamento bibliográfico, foram realizadas visitas técnicas ao MCCB com observações sistemáticas e diagnóstico de acessibilidade. Para complementar as informações coletadas nos documentos oficiais e dossiês do Museu, foram feitas entrevistas com as pessoas envolvidas no desenvolvimento do projeto do MCCB integrantes da autarquia municipal, de um grupo de profissionais, além de um representante da comunidade. Partindo de uma pesquisa-ação foi desenvolvido o livro multiformato “Saltos no tempo: uma visita especial ao MCCB”, que contou com a participação da comunidade batalhense e que comprovou sua potencialidade como um mediador entre o Museu e a comunidade.
A utilização do livro pelas crianças com/sem deficiência, juntas, num único exemplar é, para um museu, a melhor forma de ser: evolutivo nas propostas, rigoroso na mensagem, amável na comunicação inclusiva e acessível aos distintos tipos de utilizadores. Por fim, apresentou-se o conceito de comunicação equitativa e a sua potencialidade dentro e fora dos espaços museais, como um meio de promoção de justiça social, onde as diferentes formas de comunicar permitem que a igualdade de oportunidades seja colocada em prática.
HALMENSCHLAGER, Wagner. Entre o doce e o silêncio: visibilidade e sombras do patrimônio nas práticas alimentares da comunidade Gustavo Adolfo de Morro Redondo/RS. 2025. 192 f. Tese (Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2025.
Esta pesquisa analisa as práticas alimentares da Comunidade Gustavo Adolfo de Morro Redondo, explorando o papel das festividades como espaços de expressão de tradições alimentares e sociabilidades comunitárias. A análise parte da premissa de que a relação entre as festas locais e a identidade gastronômica de uma localidade é um campo de investigação fundamental para a compreensão da memória social e do patrimônio cultural de determinados lugares, pois as festas estão associadas diretamente ao modo de vida, aos valores e crenças e às expressões de cada comunidade.
A metodologia adotada nesta pesquisa baseia-se em uma abordagem qualitativa com inspirações etnográficas, em um estudo de caso focado nas festividades gastronômicas locais, especificamente na Comunidade Gustavo Adolfo do jovem município de Morro Redondo, sul do Rio Grande do Sul. O estudo investiga como estes eventos festivos utilizam o bem patrimonializado para se promover, destacando a relação entre os modos de fazer e os significados atribuídos aos alimentos na construção da identidade. Os resultados aferidos indicam que a patrimonialização do doce colonial e de outras iguarias típicas é um processo mediado por agentes internos e externos, envolvendo disputas simbólicas e negociações culturais. A pesquisa também evidencia a centralidade dos alimentos na construção de laços sociais e na transmissão de memórias, ressaltando a sua importância cultural.
Sobretudo, problematiza o fenômeno do sombreamento de outras práticas alimentares, no qual certas tradições gastronômicas se tornam mais visíveis em detrimento de outras, influenciadas por discursos institucionais e turísticos, via de regra, externos à comunidade. Ao abordar a interseção entre comida, cultura e identidade, esta tese contribui para os debates sobre a alimentação e os processos de patrimonialização gastronômica, reafirmando a importância das festas comunitárias como espaços dinâmicos de confirmação e ressignificação da tradição local. Além disso, as festas do município não se mostraram um campo real para o estudo das práticas alimentares, tornando necessária a aproximação do pesquisador com uma comunidade local, como a Gustavo Adolfo, para compreender a invisibilidade de outras práticas alimentares.
Essas práticas, embora presentes nas festas comunitárias, não estão representadas nas festividades do município, que foram transformadas em produtos voltados para o turismo e para a valorização do doce colonial. Esse, um patrimônio instituído que fomenta a economia local, cobra um preço silencioso: o ocultamento de outras práticas gastronômicas tão essenciais para a coesão e sustentabilidade das comunidades, devido ao sombreamento que operam.
ELTZ, Amanda Mensch Eltz. Colocando o engenho a tocar: moendas, tachos, alambiques e a memória da cultura da cana-de-açúcar na Antiga Torres – RS – Brasil. 2025. 284 f. Tese (Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural) – Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2025
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Finance Code 001. Vincula-se ao Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), na linha de pesquisa Memória e Identidade. A pesquisa centra-se na análise do percurso da cultura e tradição agroindustrial sucroalcooleira como um patrimônio cultural imaterial e material situado no espaço social da Antiga Torres.
A investigação utilizou o método estudo de caso, coletando e sistematizando documentos arquivísticos e audiovisuais sobre o tema. A constituição do referencial teórico contempla os conceitos: patrimônio material e imaterial, memória social (coletiva), representação, tradição, patrimônio industrial e espaço social. A tese foi estruturada em 6 capítulos. Nos capítulos 2 ao 4 realiza-se a apreciação do percurso histórico da cultura da cana de açúcar, assim como da formação do território da Antiga Torres e as relações com o espaço social da Aglomeração Urbana do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Posteriormente, segue-se para os capítulos 5 e 6. O quinto capítulo investiga os espaços de produção como patrimônio tradicional material e imaterial da Antiga Torres.
Para tanto investiga os vestígios e práticas agroindustriais familiares transmitidas de geração em geração. Aborda os conceitos de arqueologia industrial e memória, reforçando os preceitos de identificação e pertencimento (identidades) associados aos mestres e mestras e seus saberes e fazeres tradicionais. O sexto capítulo enfatiza a cultura imaterial nos ofícios e maestrias agroindustriais artesanais da Antiga Torres. Evidencia as práticas produtivas, transmissão de saberes, vínculos simbólicos e as transformações da cultura, sendo todos esses fatores preponderantes para a compreensão da tradição.
http://guaiaca.ufpel.edu.br/xmlui/handle/prefix/19001
NOGUEIRA, Claudia da Silva. Fábricas de conhecimento: Instituições Culturais de memória no século XXI em diálogo com a gestão cultural integrada. Orientadora: Francisca Ferreira Michelon. 2026. 244p. Tese (Doutorado em Memória Social e Patrimônio Cultural) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2026.
O descompasso entre a rigidez da instituição de matriz clássica e a fluidez das demandas sociais contemporâneas impulsiona a emergência de novos arranjos institucionais. Historicamente centradas na salvaguarda material de acervos, as instituições culturais enfrentam hoje o desafio de atuar em territórios vulneráveis e em constante disputa. Nesse cenário, a pesquisa investiga como iniciativas de base comunitária superam a lógica da mera custódia para operar como dispositivos ativos de produção, organização e circulação de sentidos. O objetivo central consiste em formular, analisar e validar o conceito de Fábricas de Conhecimento, um modo institucional emergente que prioriza a produção coletiva de saberes e o uso tático do patrimônio cultural para o desenvolvimento local e a afirmação política cidadã. A investigação adota uma abordagem qualitativa e comparativa, orientada pelo método de estudo de casos múltiplos. A etapa empírica investigou quatro experiências singulares localizadas no município de Pelotas, Rio Grande do Sul: o Museu Gruppelli, a Associação Outroporto, o Clube Cultural Fica Ahí e a Companhia de Dança Afro Daniel Amaro.
O percurso metodológico triangulou análise documental, registros reflexivos de campo e entrevistas semiestruturadas com gestores, equipes operacionais e membros da comunidade de referência. O material coletado sofreu interpretação a partir de uma matriz analítica elaborada e fundamentada em três eixos estruturantes, isto é, participação social, transversalidade e hibridização. Os resultados revelam uma metamorfose institucional profunda, que desloca o eixo de ação do “patrimônio-estoque” estático e fetichizado para o “patrimônio-recurso” dinâmico e relacional. A sobrevivência dessas estruturas ancora-se na administração contínua de dilemas materiais e éticos, rompendo com a busca por uma pacificação ilusória do espaço. Identificou-se que alguns arranjos ainda enfrentam limites gerados pela tutela acadêmica prolongada ou a fragmentação derivada da precariedade física, enquanto outros convertem a prática cultural em amplas redes de proteção social, cuidado periférico e visibilidade identitária.
Em todas as frentes, o acervo, a edificação ou o próprio corpo abandonam a neutralidade contemplativa para atuar como instrumentos ativos de mediação de crises e letramento social. Conclui-se que as Fábricas de Conhecimento não representam uma tipologia jurídica ou arquitetônica rígida, mas um estado de funcionamento processual contínuo. A tese demonstra que para se manterem ativas, essas organizações mostram que a Gestão Cultural Integrada opera como condição de funcionamento, abandonando a ilusão de um ambiente sem problemas e usar os conflitos cotidianos como combustível para criar soluções e projetos reais. Essa dinâmica exige uma relação de igualdade, garantindo que o conhecimento técnico e a experiência comunitária sejam reconhecidos como matrizes legítimas na produção das decisões e dos sentidos. Por fim, a análise evidencia que a preservação do passado só se sustenta institucionalmente quando articulada às urgências sociais do presente.
Guardar acervos e histórias só funciona quando a instituição atua, na prática, para proteger a vida, a segurança e a dignidade das pessoas que habitam aquele espaço. Assim, o cuidado com o patrimônio e o cuidado com o ser humano consolidam-se como tarefas inseparáveis para o alcance da aproximação emancipatória dessas instituições culturais.
ATAIDES, Rayza Roveda. O trabalho feminino nas fotografias da Coleção Metalúrgica Abramo Eberle: memória visual fabril. 2026. 166 f. Dissertação (Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2026.
Esta dissertação analisa as representações do trabalho feminino nas fotografias da Coleção Metalúrgica Abramo Eberle, buscando identificar permanências e transformações nas formas pelas quais as trabalhadoras foram registradas ao longo da trajetória da empresa, em Caxias do Sul – RS. O corpus é constituído por 43 fotografias produzidas entre 1906 e a década de 1970, selecionadas a partir da presença de mulheres em diferentes espaços e atividades da Metalúrgica. A pesquisa adota abordagem qualitativa e articula análise fotográfica, pesquisa documental, revisão bibliográfica e história oral.
Para sistematizar o conjunto, utiliza uma ficha de análise que contempla aspectos relacionados à produção e composição das imagens, aos espaços de trabalho, às atividades desempenhadas e às formas de representação das trabalhadoras. As fotografias são analisadas em diálogo com documentos institucionais, especialmente o Boletim Eberle, e com depoimentos de ex-trabalhadoras. Os resultados demonstram a presença feminina em diferentes espaços e etapas da produção industrial e revelam transformações nas formas de representação do trabalho, nas vestimentas e na organização dos ambientes, assim como permanências relacionadas à divisão do trabalho e ao predomínio masculino nas posições de chefia. Evidenciam também um contraste entre a presença expressiva das trabalhadoras nas fotografias e sua reduzida identificação individual nos registros preservados.
O cruzamento entre fontes visuais, documentais e orais permite acessar aspectos do cotidiano fabril que as imagens isoladamente não revelam, incluindo desigualdades, relações de trabalho, sociabilidades e vínculos construídos com a empresa. Conclui-se que a análise dessas fotografias a partir da perspectiva de gênero amplia a compreensão da memória visual da Metalúrgica Abramo Eberle e de seu patrimônio industrial, reconhecendo a participação das mulheres em sua história.