Monumentos na Itália preservam a memória de famílias que emigraram para outros países
Por Clarissa Ribeiro, em 03 de outubro de 2026.

A memória da imigração italiana está presente em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, por meio de monumentos, museus e espaços dedicados às famílias que chegaram ao Brasil a partir do século XIX. Na Itália, porém, as homenagens encontradas nas comunidades de origem apresentam outra perspectiva, elas são dedicadas àqueles que partiram e deixaram para trás suas casas, familiares e histórias. A professora doutora Francisca Ferreira Michelon, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), destaca essa diferença durante seu período de pós-doutorado na região de Molise.
A experiência integra a pesquisa desenvolvida pela professora sobre os conhecimentos relacionados aos moinhos coloniais e sua relação com a grande onda migratória italiana para o Brasil, iniciada no último quarto do século XIX e prolongada pelas primeiras décadas do século XX. Para Francisca, estudar essas estruturas significa também compreender a história das pessoas que as construíram e utilizaram. “Para quem hoje vê um moinho colonial, o que se figura é um edifício antigo, alguns desses construídos totalmente em madeira; para quem os estuda, são fatos da imigração”, explica.
Segundo a pesquisadora, os moinhos eram estruturas que reuniam atividades produtivas e, em alguns casos, também serviam como moradia. Seu funcionamento dependia do conhecimento dos trabalhadores, que dominavam as técnicas necessárias para realizar as atividades. “Quando essas famílias partiam, levando o que podiam ou o que possuíam, talvez não soubessem que a maior ferramenta que carregavam era o conhecimento do que sabiam fazer”, pontua.
A reflexão amplia o olhar sobre a imigração, que não envolve apenas o deslocamento de pessoas, mas também a transferência de conhecimentos, práticas de trabalho e referências culturais entre países.
Monumentos que lembram os que partiram
Durante as visitas a diferentes comunidades de Molise, Francisca identificou monumentos dedicados aos emigrantes italianos. Diferentemente das homenagens encontradas no Brasil, que geralmente celebram a chegada e a contribuição dos imigrantes, essas estruturas preservam a memória daqueles que deixaram suas cidades de origem. “Na Itália, esses monumentos se referem aos que partiram. Estão justamente nas localidades de onde partiram”, destaca.
Entre os exemplos observados está o monumento localizado no borgo de Civita Superiore, pertencente à comune de Bojano. Segundo a professora, ao chegar ao Largo San Giovanni, o visitante encontra uma coluna quadrada de mármore branco, com os nomes dos moradores que emigraram inscritos em três de seus lados. Sobre a estrutura, uma escultura de bronze representa um jovem segurando uma mala e olhando para frente. A obra foi instalada em 1999 por uma confraria de descendentes de emigrantes que se estabeleceram no Canadá. A homenagem, situada em uma comunidade atualmente pouco habitada, dedica-se à memória dos emigrantes de todo o mundo.
Em Agnone, outra cidade da região, a representação é diferente. Três figuras de bronze – um jovem, uma jovem e uma criança – aparecem abraçadas, simbolizando uma família. A placa que acompanha a escultura traz a inscrição: “Agnone: aos seus filhos emigrados no mundo. No mundo a realização do próprio destino; no coração o amor pela pátria distante. Agnone, 6 de agosto de 2000.”
Já em Bagnoli del Trigno, na província de Isernia, o monumento apresenta uma figura humana apoiada nas cordas da murada de um navio, acompanhada de uma mala. A composição representa o momento da partida e também identifica os países para os quais emigraram familiares dos responsáveis pela doação da obra, inaugurada em 2010.

A pesquisadora também encontrou homenagens mais recentes, como a de Castropignano, inaugurada em 2023, e outras que representam famílias inteiras. Em Vinchiaturo, onde funciona o Museo Comunale delle Migrazioni, está um dos monumentos mais antigos identificados por ela, datado de 1985 e doado por descendentes que vivem em Montreal, no Canadá. Em Cercemaggiore, a homenagem recebe o nome de “A Porta do Mundo” e apresenta uma composição conceitual. Os diferentes formatos demonstram como cada comunidade encontra maneiras próprias de registrar a memória de seus antigos moradores.

A despedida como representação da imigração
Entre os monumentos visitados, entretanto, um conjunto de painéis em Casalciprano foi o que mais emocionou Francisca. Localizadas na parede de uma das casas do borgo, as três estruturas integram o percurso do Museo della Vita Contadina e representam a partida dos emigrantes. “Mas o monumento que mais me emocionou não foi o totem ou as estátuas, mas três painéis em Casalciprano”, relata.

As imagens apresentam a despedida como elemento central da experiência migratória. Para a professora, a representação chama a atenção justamente por não se concentrar na viagem, na chegada ao novo país ou nas dificuldades de adaptação, mas no momento em que as pessoas deixam suas origens.
A localização dos painéis também contribui para essa relação com a memória. Instalados em um espaço de circulação, são vistos tanto pelos visitantes quanto pelos moradores que permanecem no borgo. Francisca observa que muitas dessas pequenas comunidades italianas passaram por processos de despovoamento. Mesmo que elas preservem construções históricas e recebam visitantes interessados no patrimônio arquitetônico, apresentam dificuldades relacionadas à ocupação e à permanência dos moradores. “Quanto mais preservados, mais indicativos de como era a vida nesses lugares e foram deles que saíram as levas de imigrantes que chegaram às Américas, à África, a outros países da Europa”, diz.
Saudade e esquecimento
A observação dos monumentos também despertou reflexões na pesquisadora, que afirma ter poucas informações sobre a história de seus próprios antepassados italianos e, principalmente, sobre aqueles que permaneceram na Itália. “Passado mais de um século e meio, os que foram e conseguiram vencer a travessia, conseguiram sobreviver ao início árduo e adaptar-se, deixaram gerações que hoje requisitam cidadania, memória ou coisas mais fáceis, como entendimento de como foi a vida depois que partiram”, declara.
A professora questiona o que os emigrantes conseguiram levar consigo, o que deixaram para trás e quais referências do país de origem permaneceram ao longo das gerações. Na avaliação de Francisca, a migração foi marcada por condições econômicas difíceis. A pobreza e a falta de perspectivas levaram muitas famílias a buscar oportunidades em outros países, enquanto outras permaneceram nas comunidades de origem. Nem todos os que partiram conseguiram melhorar suas condições de vida ou retornar.
Nesse contexto, os monumentos assumem um significado importante. Para a pesquisadora, eles podem representar uma tentativa das gerações posteriores de recuperar histórias, reconhecer nomes e reconstruir vínculos que foram interrompidos pela distância e pelo tempo. “E hoje, tantos monumentos, provocados ou concretizados pelas gerações que vieram dos que partiram, não sejam formas de reconciliação, de encontrar nomes onde só havia silêncio”, salienta.

Para Francisca, percorrer esses espaços permite compreender que a história da imigração não termina com a chegada ao destino. Ela continua nas gerações seguintes, nas práticas transmitidas, nos conhecimentos preservados e nas memórias reconstruídas por quem ficou. Ao observar as homenagens espalhadas pelas comunidades italianas, a pesquisadora encontra uma dimensão que se complementa à história da imigração no Brasil: a memória daqueles que permaneceram, que convive com as ausências deixadas pela partida.
A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 Instituição de Execução: Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção (Processo: 403368/2024-3 ) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.


