Procissão na Itália preserva tradição secular e inspira reflexões sobre memória e patrimônio
Por Clarissa Ribeiro, em 18 de outubro de 2026.
Uma procissão que reúne crianças suspensas em estruturas centenárias, carregadas nos ombros de voluntários, transforma as ruas de Campobasso, na região italiana de Molise, em um cenário que combina elementos como fé, história e tradição. Realizada anualmente durante a celebração de Corpus Domini, a festa I Misteri despertou a atenção da professora doutora Francisca Ferreira Michelon, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), durante seu período de pós-doutorado na Itália.

Muito além de acompanhar o desfile, a pesquisadora buscou compreender os significados que envolvem a celebração e a maneira como ela permanece viva ao longo dos séculos. A experiência também despertou reflexões sobre a transmissão de conhecimentos entre gerações e a relação entre memória, patrimônio e identidade cultural. “Levei um tempo, quase todo o que estou aqui, para perceber as camadas de significados desta festa”, relata Francisca.
Segundo ela, compreender a celebração exige mais do que observar o espetáculo nas ruas. Foi necessário conhecer sua história e visitar o museu dedicado à manifestação. Em 2026, a procissão ocorreu no domingo, 7 de junho. O desfile percorreu cerca de 3,5 quilômetros pelo centro histórico de Campobasso, reunindo 13 estruturas conhecidas como andatori, cada uma dedicada à representação de um santo ou de episódios de sua vida.
Os conjuntos são carregados nos ombros de voluntários e possuem mecanismos que sustentam figuras humanas, geralmente crianças de diferentes idades. O sistema cria a impressão de que elas flutuam sobre os cenários, um dos elementos que tornam a procissão conhecida.

A concepção das estruturas é atribuída ao escultor barroco Paolo Saverio Di Zinno, que desenvolveu os aparatos em meados do século XVIII. Inicialmente, as figuras eram representadas por esculturas de madeira, posteriormente substituídas por pessoas. Ao longo do tempo, os mecanismos também passaram por mudanças.
Tradição ultrapassa procissão
Para Francisca, a visita ao Museu I Misteri foi fundamental para compreender a dimensão histórica da festa. O espaço reúne os equipamentos utilizados no desfile e apresenta registros de diferentes épocas, permitindo observar as transformações pelas quais a celebração passou. Entre os materiais expostos, as fotografias antigas despertaram o interesse da pesquisadora. Ao registrar essas imagens, ela refletiu sobre a relação entre fotografia e memória. “Sempre penso que, ao fotografar uma foto, estamos gerando um clone do tempo”, afirma.

A observação também a levou a imaginar como era a procissão há cem anos, desde a preparação das estruturas até o esforço necessário para carregá-las. Algumas podem pesar 400 quilos ou mais, exigindo coordenação e resistência física dos voluntários. “Confesso que tendo visto os equipamentos e a ficha técnica de cada andador, imaginei o desfile há cem anos, a preparação, o desafio de colocar as crianças e depois de carregar uma estrutura de 400 kg ou mais sobre os ombros”, diz.
Embora a celebração tenha se transformado, a capacidade de provocar surpresa permanece. Para a professora, o principal significado da festa não está apenas no espetáculo visual, mas na continuidade de conhecimentos e habilidades necessários para realizá-la. A organização envolve grupos de fiéis ligados aos santos representados, responsáveis por diferentes tarefas. São necessários profissionais e pessoas com habilidades em áreas como carpintaria, metalurgia, costura e produção de cenários e figurinos.
Francisca destaca a permanência desses saberes como um dos aspectos mais relevantes da manifestação. Ao citar o estudo da antropóloga Di Giannantonio (2014), ela chama a atenção para a habilidade dos trabalhadores envolvidos na produção dos trajes e das estruturas, que utilizam diferentes materiais e técnicas para dar forma às representações.
Memória construída
A pesquisadora também relaciona a celebração às referências históricas dos samnitas, antigo povo que habitava a região montanhosa dos Apeninos, na área onde hoje se encontra Molise, e que resistiu ao domínio romano na península Itálica. Estudos antropológicos buscam identificar possíveis relações entre a organização social desse povo e tradições festivas que permaneceram na região. Para Francisca, entretanto, a continuidade cultural não depende necessariamente de uma ligação direta de descendência entre os habitantes atuais e os povos antigos. “Mas a memória é assim mesmo, vive menos dos fatos do que dos sentidos que se vão somando no tempo”, pontua.

A professora considera que a tradição se mantém por meio da prática, da repetição e da adaptação de conhecimentos. Na procissão, crianças, voluntários e grupos de fiéis participam de uma celebração que atravessa gerações e continua sendo reconhecida pela comunidade como parte de sua história. “E a tradição não corre nas veias, mas na mente e no coração”, observa.
Dos I Misteri aos moinhos coloniais
A experiência em Campobasso também se conecta à pesquisa que Francisca desenvolve sobre os moinhos coloniais do Rio Grande do Sul e os conhecimentos que acompanharam a imigração italiana para o Brasil.
Segundo a pesquisadora, muitos imigrantes partiram levando poucos pertences, mas carregavam consigo o conhecimento adquirido no trabalho e na vida cotidiana. Agricultores, artesãos e operários aplicaram essas habilidades em novos territórios, adaptando técnicas às condições encontradas. “Os imigrantes que se foram daqui com poucas coisas, ferramentas e pertences, não levavam na mala o essencial, mas na memória: um conhecimento prático do fazer”, explica.
Os moinhos coloniais são, para ela, exemplos materiais dessa transmissão, pois representam conhecimentos aplicados, tecnologias e formas de trabalho que encontraram continuidade no Brasil. “Os moinhos são ícones dessa adaptação, heranças de conhecimento aplicado, expressões materiais das tecnologias que vivem pela memória”, confirma.

A reflexão também considera que nem todos os imigrantes conseguiram melhorar suas condições de vida ou romper com a pobreza. Ainda assim, aqueles que conseguiram estabelecer novas atividades contribuíram para a formação de práticas e estruturas que permaneceram ao longo do tempo.
Para Francisca, tanto os moinhos quanto a procissão I Misteri demonstram que a preservação da memória depende de sua continuidade na vida cotidiana. O patrimônio não está apenas nos objetos conservados, mas também nas habilidades e nos conhecimentos que permitem que eles continuem existindo.
Nesse sentido, a procissão e o museu funcionam como espaços em que o passado permanece presente, não como uma reprodução imutável, mas como uma prática renovada a cada geração. “Os moinhos, os que sobraram, também são ícones de resistência”, conclui. Para a pesquisadora, a experiência em Campobasso evidencia como tradições de diferentes lugares podem se conectar por meio dos conhecimentos transmitidos ao longo do tempo.
A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 Instituição de Execução: Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção (Processo: 403368/2024-3 ) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.


