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Moinho na Itália preserva memória de família e aproxima história de imigrantes dos moinhos gaúchos

Por Clarissa Ribeiro, em 26 de outubro de 2026.

A memória de uma família pode ser decisiva para manter viva a história de um moinho. Essa relação foi observada pela professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Francisca Ferreira Michelon, durante uma visita ao Antico Mulino Corona, localizado na comuna de Baranello, na província italiana de Campobasso. A experiência permitiu aproximar a trajetória do moinho italiano à de construções históricas preservadas por famílias descendentes de imigrantes no Rio Grande do Sul.

A visita integra as reflexões desenvolvidas pela pesquisadora durante seu período de pós-doutorado em Molise, na Itália, onde estuda os moinhos coloniais gaúchos e os conhecimentos técnicos levados pelos imigrantes. No Moinho Corona, ela encontrou um exemplo de como a memória familiar pode contribuir para a conservação de um patrimônio histórico. “Para isso, serve a pesquisa: ajustar o foco”, afirma a professora, relatando como a experiência na Itália ampliou sua compreensão sobre a relação entre os moinhos e as famílias que preservam sua história.

Uma história mantida

Antes de conhecer o Moinho Corona, Francisca havia visitado o Moinho Ghinzelli, em Antônio Prado, na Serra Gaúcha. Durante a visita guiada, conduzida pelo bisneto do imigrante responsável pela construção, chamou sua atenção a informação de que o fundador havia chegado ao Brasil ainda muito jovem e sozinho.

A pesquisadora inicialmente considerou que essa situação poderia ser rara. A dúvida ganhou outra perspectiva quando, ao consultar o arquivo fotográfico digital do Centro Studi Emigrazione Roma (CSER), encontrou uma fotografia de 1900 que retratava uma situação semelhante.

Figura 1: Dados da fotografia tal como aparece no Archivio Fotografico .

A imagem não mostrava o bisavô Ghinzelli, mas indicava que a experiência de jovens que migravam sozinhos poderia ter ocorrido com alguma frequência. A comparação entre os dois moinhos, no entanto, revelou uma dimensão ainda mais significativa para a pesquisa, o papel da memória familiar na preservação dessas construções.

Figura 2: No interior do Moinho Ghinzelli, ao entrar na área da moagem, foi colocada a placa na qual se lê o nome de Cesare, o imigrante construtor, e a data de fundação. Observar a diferença de grafia do sobrenome para hoje.

O Antico Mulino Corona é um dos antigos moinhos instalados ao longo do rio Biferno, em Molise, e o único remanescente mantido e restaurado entre aqueles que não foram transformados em centrais hidrelétricas.

Figura 3: Vista posterior do moinho com os túneis de retorno da água ao rio no Facebook Antico Mulino Corona, disponível em:

https://www.facebook.com/photo/?fbid=1329756639348666&set=pb.100069430269301.-2207520000&locale=it_IT

A construção está sob proteção da Superintendência de Arqueologia, Belas-Artes e Paisagem de Molise desde 13 de setembro de 1990.

Figura 4: Porta de entrada do moinho com a placa do registro de bem cultural.

O restauro foi realizado entre 2014 e 2015, com financiamento de um programa de desenvolvimento rural. O trabalho foi conduzido por integrantes da família que detinha o moinho desde o início do século XIX. Em 2025, os responsáveis publicaram um livro que reúne informações sobre o funcionamento dessas antigas estruturas, a história familiar e a trajetória do casal de moleiros Caterina e Mariano.

Figura 5: Entrada com piso adaptado para o ingresso dos cavalos com os sacos de grão.

Casa da família como lugar de encontro

Um dos aspectos que mais chamou a atenção de Francisca foi a preservação da casa dos bisavós do professor Piernicola Di Iorio, responsável por apresentar o moinho à pesquisadora. A residência permanece ao lado da antiga fábrica, e a cozinha foi mantida como um espaço de convivência familiar. O ambiente reúne uma longa mesa de refeições e os móveis que compunham a cozinha. Ainda hoje, é ali que a família se encontra nos fins de semana para almoçar. Para a pesquisadora, a permanência desse uso aproxima a história do edifício da vida de quem o herdou.

Figura 6: Área interna onde estão as três máquinas de moagem que poderiam ser acionadas separadamente: a do primeiro plano continha uma mó de granito, adequada para a moagem de consumo humano e as outras duas, para moagem de consumo animal.

A relação entre o moinho e a família também está ligada à função social que essas construções desempenhavam no passado. Além de moer os grãos, os moinhos eram pontos de encontro de pequenas comunidades. Como o funcionamento dependia das condições do rio e das épocas adequadas para levar os grãos, a espera fazia parte da rotina. “Enquanto se esperava, se contava a vida, se fazia algum negócio, algum escambo. O tempo da espera era útil”, relata.

O funcionamento da gualchieria pode ser visto neste vídeo: https://www.facebook.com/anticomulinocorona/videos/la-gualchiera-dellantico-mulino-coronauna-gualchiera-%C3%A8-un-macchinario-di-epoca-p/124663658068533/

Com o fim da atividade dos moleiros, muitos moinhos foram abandonados ou passaram a ter outras funções. A restauração que preserva as características e a função histórica da construção, sem descaracterizá-la, é uma escolha que exige investimento e envolvimento de quem reconhece aquele espaço como parte de sua trajetória.

Figura 7: Parte posterior do moinho

A memória que mantém o moinho vivo

No caso do Moinho Corona, a lembrança do casal Caterina e Mariano foi central para a decisão de recuperar o patrimônio. Os dois viveram e trabalharam no local por décadas, mantendo a atividade até que, após o falecimento de Caterina, o moinho deixou de funcionar. Com o passar do tempo, a estrutura sofreu os efeitos do abandono. A família, que cresceu e se espalhou por diferentes lugares, encontrou na memória do casal um ponto de convergência para viabilizar o restauro. A história de Caterina teve destaque nesse processo, pois ela continuou mantendo o moinho em funcionamento mesmo quando a atividade já parecia próxima do fim.

Para Francisca, esse vínculo ajuda a compreender as semelhanças entre o moinho italiano e as construções preservadas no Rio Grande do Sul. Em ambos os casos, o patrimônio material está associado a histórias familiares. Embora a pesquisa tenha como foco a tecnologia, a arquitetura e a importância histórica dos moinhos, a experiência em Molise reforça a dimensão cultural dessas construções. Elas preservam não apenas estruturas e equipamentos, mas também lembranças, práticas de trabalho e conhecimentos transmitidos ao longo do tempo.

A permanência do Moinho Corona depende, assim, da continuidade dessa memória e da capacidade de compartilhá-la com as próximas gerações. Como observa a pesquisadora, a história da construção, como se encontra hoje, é uma questão de memória: enquanto ela permanecer ativa e puder ser contada, o moinho continuará fazendo parte da vida da família.

Figura 8: Por conta do verão excessivamente quente e sem chuvas, a água do rio não está presente no canal que a desvia do curso do rio para ingressar no moinho atingindo a roda horizontal (ritrecine) que passa a girar e dá início ao processo de moagem.

A Professora Francisca Ferreira Michelon está realizando o pós-doutorado com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa CNPQ – Bolsa de Pós-Doutorado no Exterior – PDE Processo: 200170/2026-0 na Università degli Studi del Molise como parte do projeto Tecnologias Antigas e Atuais em Culturas Tradicionais Ibero-Americanas: Sustentabilidade de Paisagens Históricas da Produção

(Processo: 403368/2024-3) apoiado na Chamada MCTI/CNPQ Nº 16/2024 – Faixa 1: Projeto em cooperação internacional.